{"id":4135,"date":"2025-02-27T15:27:27","date_gmt":"2025-02-27T18:27:27","guid":{"rendered":"https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/?p=4135"},"modified":"2025-02-27T15:27:27","modified_gmt":"2025-02-27T18:27:27","slug":"a-inteligencia-artificial-e-a-exploracao-do-trabalho-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/index.php\/2025\/02\/27\/a-inteligencia-artificial-e-a-exploracao-do-trabalho-humano\/","title":{"rendered":"A intelig\u00eancia artificial e a explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<p><strong>Carla Reita Faria Leal<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-683x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3941\" style=\"width:303px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-683x1024.jpeg 683w, https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-200x300.jpeg 200w, https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-768x1151.jpeg 768w, https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-1025x1536.jpeg 1025w, https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-1366x2048.jpeg 1366w, https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-1000x1499.jpeg 1000w, https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-500x749.jpeg 500w, https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00-1400x2098.jpeg 1400w, https:\/\/gpmat-ufmt.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-02-13-at-08.22.00.jpeg 1708w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/figure><\/div><\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">H\u00e1 alguns anos nesse espa\u00e7o, por semanas seguidas, abordamos diversos temas ligados ao trabalho na chamada de\u00a0<em>Gig economy<\/em>\u00a0ou economia de bico. \u00c0 \u00e9poca tratamos do trabalho sob demanda via aplicativos, o que passou a ser chamado de Uberiza\u00e7\u00e3o, por conta da populariza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o prestado pela empresa Uber. Falamos tamb\u00e9m de outra modalidade de trabalho por demanda, que \u00e9 o\u00a0<em>crowdwork<\/em>\u00a0ou trabalho em multid\u00e3o, que envolve tarefas como responder a pesquisas, identificar conte\u00fado nocivo na internet, avaliar elementos de texto, avaliar sentimentos humanos em fotografias, transcrever \u00e1udios, bem como de tarefas mais especializadas, como uma cria\u00e7\u00e3o de uma logomarca, cria\u00e7\u00e3o de um site, campanhas de marketing ou at\u00e9 um desenvolvimento de projeto de design de interiores. As tarefas s\u00e3o publicizadas na plataforma e disponibilizadas para que os trabalhadores se candidatem a execut\u00e1-las. Agora \u00e9 hora de falarmos sobre outros aspectos da m\u00e3o de obra utilizada pelas empresas de tecnologia, envolvendo as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e os sal\u00e1rios extremamente baixos pagos para parte dos trabalhadores do setor. Neste sentido, foi recentemente divulgado que as ferramentas de Intelig\u00eancia Artificial (IA) t\u00eam utilizado esse tipo de trabalho para a calibragem delas. \u00c9 o caso do popular ChatGPT, o qual, segundo investiga\u00e7\u00e3o da Revista\u00a0<em>Time<\/em>, utilizou-se de trabalhadores do Qu\u00eania para treinar os dados de tal ferramenta, ajudando a detectar linguagens inapropriadas, como discursos de \u00f3dio, de abuso sexual e que continham viol\u00eancia. Conforme mat\u00e9ria publicada no portal de not\u00edcias UOL, efetuada com dados da investiga\u00e7\u00e3o mencionada, os trabalhadores prestavam trabalho por interm\u00e9dio de uma empresa terceirizada, a Sama, que recebia da empresa OpenAI US$ 12,50 por cada hora laborada pelos trabalhadores, enquanto pagava a estes de US$1,32 a US$ 2 por hora, para que lessem e ressignificassem, ou seja, exclu\u00edssem os conte\u00fados impr\u00f3prios de 150 a 250 textos por dia, os quais continham de cem a mil palavras, em jornadas de cerca 9 horas por dia. Essa mesma empresa terceirizada, a Sama, j\u00e1 foi alvo de den\u00fancias no tocante ao fornecimento de m\u00e3o de obra precarizada para o\u00a0<em>Facebook<\/em>, pagando sal\u00e1rios aos trabalhadores que giravam em torno US$ 1,50 por hora, para realizarem trabalhos que envolviam a visualiza\u00e7\u00e3o e a remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado ilegal ou proibido do aplicativo o Facebook antes que ele fosse visto pelo usu\u00e1rio comum. Al\u00e9m de trabalho \u00e1rduo s\u00f3 pela leitura em si, j\u00e1 que \u00e9 atividade desgastante intelectualmente, os trabalhadores ouvidos pela investiga\u00e7\u00e3o relatam que ficavam mentalmente perturbados pela atividade que desenvolviam, j\u00e1 que liam textos de viol\u00eancia e abusos que permaneciam na mente deles por muito tempo, gerando, dentre outros, transtornos de estresse p\u00f3s-traum\u00e1ticos, depress\u00e3o e ansiedade, sem que houvesse qualquer assist\u00eancia por parte da contratante ou das empresas beneficiadas pelo trabalho, no caso, gigantes da \u00e1rea de tecnologia, que est\u00e3o no topo dessa cadeia de suprimentos. Esses trabalhadores, apesar de essenciais para a atividade de tratamento dos dados, s\u00e3o submetidos a prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de trabalho, n\u00e3o lhes sendo assegurados todos os direitos trabalhistas, al\u00e9m da remunera\u00e7\u00e3o, como mencionado, ser extremamente baixa. Por outro lado, h\u00e1 tamb\u00e9m den\u00fancias de que tal empresa tem uma pol\u00edtica de reprimir qualquer tentativa de forma\u00e7\u00e3o de sindicatos para a defesa dos trabalhadores da \u00e1rea. No Brasil tamb\u00e9m h\u00e1 um mercado de trabalho envolvendo servi\u00e7os semelhantes para empresas de tecnologia. Em mar\u00e7o desse ano, o Tribunal Regional do Trabalho da 2\u00aa Regi\u00e3o reconheceu a exist\u00eancia de v\u00ednculo de emprego com uma trabalhadora que prestava servi\u00e7o para uma empresa de IA de S\u00e3o Paulo, supervisionando o atendimento virtual de um rob\u00f4 e intervindo quando necess\u00e1rio, praticando longas jornadas. Para tanto, recebia R$ 0,11 por minuto, ou seja, R$ 6,60 por hora, pouco mais do que o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo hora. A tecnologia, se bem utilizada, pode ser ben\u00e9fica para todos os integrantes da sociedade. Por\u00e9m, ao trabalhador deve ser assegurado um patamar m\u00ednimo de direitos que assegurem a este uma exist\u00eancia digna, seja por meio do reconhecimento do v\u00ednculo de emprego, nos casos em que forem preenchidos os requisitos para tanto, seja por meio de direitos sociais m\u00ednimos. Afinal, \u00e9 importante termos claro que o ser humano enquanto trabalhador n\u00e3o pode ser tratado como mercadoria ou como servi\u00e7o, devendo ter sua dignidade preservada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Carla Reita Faria Leal \u00e9 l\u00edder do grupo de pesquisa sobre o meio ambiente do trabalho da UFMT, o GPMAT.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carla Reita Faria Leal H\u00e1 alguns anos nesse espa\u00e7o, por semanas seguidas, abordamos diversos temas ligados ao trabalho na chamada de\u00a0Gig economy\u00a0ou economia de bico. \u00c0 \u00e9poca tratamos do trabalho sob demanda via aplicativos, o que passou a ser chamado de Uberiza\u00e7\u00e3o, por conta da populariza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o prestado pela empresa Uber. 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